28 julho 2011

Histórico da Ciranda

História da cirandaNão se sabe ao certo a origem da ciranda.

A maioria dos pesquisadores acredita que a dança surgiu na Europa (em Portugal, mais precisamente).

Já outros historiadores acreditam que ela se originou a partir dos pescadores brasileiros que observando o balançar das ondas criaram um folguedo tentando imitar esses movimentos.

Nas pesquisas realizadas sobre esse folguedo, verifica-se que seu surgimento no Brasil ocorreu, simultaneamente, tanto na zona litorânea de Pernambuco quanto em certas áreas, mais interioranas, da Zona da Mata.

Nos primórdios, o ambiente de apresentação restringia-se aos locais populares como as beiras de praia, os terreiros de bodega e as pontas de rua.

Seus participantes eram basicamente estivadores, portuários, trabalhadores rurais, pescadores, operários de construção e biscateiros, entre outros.

Etimologicamente, a palavra “ciranda” foi alvo de muitas interpretações.

Para o padre Jaime Diniz, pioneiro no estudo do tema, ela é proveniente do vocábulo espanhol “Zaranda”, que é um instrumento de peneirar farinha daquele país e que teria evoluído da palavra árabe “Çarand”, como afirma Caldas Aulete no seu “Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa”.

É muito comum na literatura brasileira a definição de ciranda como uma brincadeira de roda infantil.

De fato, nas demais regiões do Brasil ela é um costume exclusivo das crianças.
Porém, nos estados de Pernambuco e Amazonas, trata-se de um folguedo original, contando principalmente com a participação dos adultos.

Como o coco, ela é uma dança bastante comunitária, não tendo nenhum preconceito quanto ao sexo, cor, idade, condição social ou econômica dos participantes.

Não existe limite numérico para esta brincadeira.

Geralmente começa com uma pequena roda de poucas pessoas, que vai aumentando à medida que outros chegam para dançar.

Estes “atrasados” abrem o círculo soltando as mãos dadas dos primeiros integrantes, inserem as suas e entram sem a menor cerimônia.

A saída do participante por cansaço ou por qualquer outro motivo ocorre da mesma forma, sem maiores satisfações.

Se a roda atinge um tamanho que dificulte sua movimentação, forma-se outra menor no seu interior.

O objetivo é a alegria de todo mundo!

Os integrantes das cirandas são denominados de cirandeiros e cirandeiras.

Tradicionalmente, além destes últimos, compõem também o folguedo o mestre, o contra-mestre e os músicos, que ficam no centro da roda.

Cabe ao mestre a responsabilidade de iniciar e comandar a animação, de tirar os cantos, de tocar o ganzá, e de manter a ordem quando necessária.

Ele utiliza um apito que fica pendurado no pescoço para auxiliá-lo nas suas funções.

É o integrante mais importante e muitas vezes seu nome serve de identificação da ciranda (ex.: a ciranda de Baracho, a ciranda de Lia, etc.).

O ganzá, a zabumba e o tarol formam o instrumental básico de uma ciranda tradicional.

Às vezes, encontram-se ainda a cuíca, o pandeiro, a sanfona, ou algum instrumento de sopro.

As músicas cantadas pelo mestre podem ser aquelas já decoradas (dele ou de outros mestres), improvisações, ou até mesmo canções comerciais de domínio público transformadas em ritmo de ciranda.

Uma das cirandeiras mais famosas é Maria Madalena Correia do Nascimento, a Lia de Itamaracá.

– Ciranda acompanha as ondas do mar, sempre com o pé esquerdo –, diz Lia.

Lia de Itamaracá foi descoberta, ainda na década de 1960, pela compositora Teca Calazans, que fazia pesquisas musicais no Nordeste.

Na Ilha de Itamaracá, perto do Recife, ela encontrou em Lia uma fonte de muitas cirandas e outros ritmos nordestinos.

Foi aí, que Teca Calazans resgatou um dos versos mais conhecidos do cancioneiro popular brasileiro: “Oh, cirandeiro/ cirandeiro, oh/ a pedra do teu anel/ brilha mais do que o sol”.

Teca Calazans deu o crédito a sua fonte com o seguinte complemento na canção que compôs: “Esta ciranda, quem meu deu foi Lia/ que mora na Ilha de Itamaracá”.

A cirandeira gravou seu primeiro disco, “A Rainha da Ciranda”, em 1977, pelo qual não recebeu nenhum tostão.

Lia continuou a trabalhar como merendeira em uma escola pública da rede estadual.
Quase 20 anos depois, foi redescoberta pelo produtor musical Beto Hees, que a levou para participar do festival Abril Pro Rock, realizado no Recife e Olinda em 1998.

A partir de então, Lia, que faz músicas desde os 12 anos, passou a fazer shows por todo o Brasil e no exterior.
Ela voltou a gravar um álbum em 2000, o CD “Eu Sou Lia”, com repertório que incluía coco de raiz, loas de maracatu e, claro, cirandas.

O trabalho foi lançado na França e nos Estados Unidos, onde o New York Times chamou Lia de “diva da música negra”.

Em terras brasileiras, a cirandeira passou a conquistar mais e mais espaço.

Ela, que já havia sido imortalizada nos versos “Eu sou Lia da beira do mar/ Morena queimada do sal e do sol/ Da Ilha de Itamaracá”, de Paulinho da Viola, participou do CD do grupo Nação Zumbi e foi citada por Lenine e Otto.
Na sua forma mais simples, a ciranda consiste de uma grande roda formada por mulheres, homens, rapazes, moças e crianças, de mãos dadas, que movimentam o corpo, simulando o movimento das ondas do mar.

Girando à direita, com os braços e pés em movimentos graciosos, todos ondulam os seus sonhos acompanhando as canções tiradas pelo mestre que, quase sempre está no centro da roda ou lado.

O mestre cirandeiro, também chamado de “puxador de ciranda”, é acompanhado por uma pequena orquestra que tem o ritmo marcado pelo zabumba e o tarol.

As pessoas repetem os versos do “puxador”.

Os passos da dança variam com a própria dinâmica da manifestação, não sendo, portanto, definitivos.

Pode-se, porém, destacar os três mais conhecidos dos cirandeiros: a onda, o sacudidinho e o machucadinho, que ainda hoje são executados pelas cirandas de Manacapuru.

A brincadeira não possui figurino próprio, estando seus integrantes livres para utilizarem todo tipo de roupa.
A ciranda é a mais simples de todas as danças populares.

Não requer prática, nem habilidade.

Seu ritmo lento e suave permite também a participação de pessoas idosas e atrai crianças pela facilidade e singeleza, dando oportunidade de expressão corporal até aos mais tímidos.

E Manacapuru mostrou que era possível a dança evoluir e se modernizar sem perder a magia.

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